41% viram alcoólatras após os 34 anos

Levantamento aponta que a faixa etária de 34 a 44 anos é a de maior risco de tornar-se dependente crônico de álcool
Aos 36 anos, no dia em que a esposa saiu de casa, C.A.M.C. se viu no fundo do poço. Desconsolado com mais uma perda em sua vida, foi para um bar e ingeriu inacreditáveis 34 doses de cachaça. Nem se lembra como fez o caminho de volta para casa.

No auge da vida produtiva, o vigilante C. estava desempregado e mal acompanhava o crescimento da filha pequena, na época com apenas 2 anos de idade. O sentimento de abandono foi tamanho que imergiu ainda mais no mundo da bebida, se tornando um alcoólatra contumaz.

Hoje, com 43 anos, C. freqüenta um dos grupos de Alcoólicos Anônimos (AA) de Bauru e reforça as estatísticas de um levantamento recente da Secretaria de Estado da Saúde, que aponta que o alcoolismo se torna um problema crônico a partir dos 34 anos de idade. Segundo o estudo, 41% dos 285 pacientes diagnosticados como alcoólatras tinham entre 34 e 44 anos. A grande maioria, 89%, era homem.

A faixa etária dos 45 aos 55 anos respondeu por 23% dos pacientes. Outros 18,2% tinham entre 23 e 33 anos. O estudo foi realizado entre janeiro e setembro deste ano pelo Centro de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), serviço prestado pelo governo paulista.

Para a enfermeira Luciana de Oliveira Martins, coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps-AD) de Bauru, a dependência se agrava nesta faixa etária porque geralmente é neste momento que os problemas que se arrastaram por anos chegam ao extremo.

“Quando o dependente é uma pessoa sociável, com família e emprego, ele acha que está tudo bem. Mas quando as realizações profissionais e pessoais começam a ser frustradas por sua incapacidade de superar a doença, ele acaba se afundando ainda mais”, descreve.

O início do uso da bebida começa bem antes, por volta dos 16 anos, quando os indivíduos começam a se socializar. “A diferença é que nesta época de festas e baladas, tudo parece ser uma festa. Os problemas só vão aparecer quando surgirem as responsabilidades da vida adulta”, pontua.

Embora a ciência considere que fatores biológicos pré-dispõem o indivíduo a se tornar um alcoólatra, Luciana salienta que qualquer um de nós, que bebe socialmente ‘o choppinho de cada final de semana’, não está imune ao vício. “O meio social em que a pessoa vive pode ser determinante”, destaca ela, lembrando que os homens são a esmagadora maioria dos adictos em razão da influência cultural a que ambos os sexos, de maneiras diferentes, estão submetidos.

Assim como aconteceu com grande parte deles, C.A.M.C. perdeu tudo o que tinha após quase 15 anos de abuso contínuo de bebida: ficou sem emprego, dinheiro, esposa, filha e casa. Em processo de recuperação no AA, ele avalia que, mais do que perder a oportunidade de se tornar um profissional bem sucedido, deixou escapar a chance de ser uma referência para sua filha, hoje com 11 anos de idade. “É o que mais lamento”, revela.

Fonte: jcnet.com.br

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