A crise global iniciada no mercado de hipotecas americano tende a se tornar um ponto de mutação na maneira de se fazer negócios. Para Alexandre Fialho, diretor de relações Iistitucionais da Fundação Dom Cabral, deve haver uma forte retomada das relações pessoais no mundo corporativo.
“Os banqueiros precisarão conhecer as companhias. Não existirá mais aquela prática virtual da concessão de crédito. As empresas também seguirão essa nova realidade antes de negociar com seus clientes e fornecedores”, afirma ele, que prevê também um rearranjo geopolítico mundial, no qual os mercados emergentes terão uma posição de maior destaque nas estratégias de negócios.
Nos últimos meses, Fialho tem se reunido em fóruns com os principais representantes de empresas globais para diagnosticar tendências, principalmente no contexto da crise. Ele participou do CEO Fórum da Amcham-Belo Horizonte e concedeu entrevista ao site da Amcham. Os principais trechos:
Amcham: Durante sua apresentação, o sr. alertou para um rearranjo geopolítico pós-crise. O que se pode esperar desse novo cenário?
Alexandre Fialho: Essa reestruturação vem oportunamente pela crise. Os Estados Unidos, por exemplo, para amenizar seus impactos, devem torcer tanto ou mais por China, Brasil e América Latina quanto por sua economia interna. Os países desenvolvidos caíram na realidade de que mercados fora do seu mundo têm importância e dominarão a dinâmica da nova economia.
É o caso dos bancos. Os únicos dois grandes que não tiveram impactos significativos durante a crise foram Santander e HSBC, isso porque estavam muito bem colocados na economia real fora dos Estados Unidos e da Europa, muito fortes na América Latina e na Ásia. Essa lógica serve para todos os tipos de empresa. As que estiverem bem colocadas globalmente terão um impacto da crise menor do que a das outras.
Amcham: Podemos dizer que o grande erro de americanos e europeus foi não desenvolver uma visão global?
Fialho: O que acontece é que a economia americana e a européia chegaram em uma semi-estagnação. Enquanto no Brasil, por exemplo, (o presidente) a inclusão de 20 milhões de pessoas a uma classe de consumo coloca oportunidades internamente de crescimento da economia, nos Estados Unidos não existem as mesmas oportunidades. As empresas que operam nos EUA e nos países europeus pecaram por não enxergar os mercados emergentes. Focaram apenas nos tradicionais.
Amcham: Houve então uma subestimação dos mercados emergentes...
Fialho: Sem dúvida. A economia mudava ao vácuo do crescimento chinês e indiano. Acontece que esse vácuo não era estratégico, era um efeito manada. Com essa crise, as empresas refletirão mais, agirão baseadas em fundamentos e aí a região da América Latina, e principalmente o Brasil, devem ser considerados.
Amcham: No contexto da crise, até mesmo empresas que não tiveram seus resultados reais afetados reduziram investimentos. O que deve mudar de agora em diante nas relações de negócios?
Fialho: Teremos uma retomada das relações pessoais. Para liberação de crédito, mais importante do que taxa de juros e balanço será considerar a operação da empresa. Para isso, os banqueiros precisarão conhecê-la. Não existirá mais aquela prática virtual da concessão de crédito. A relação pessoal se tornará extremamente importante, imperante nos comitês de crédito qualitativos que agora serão exigidos.
As empresas também seguirão essa nova realidade antes de negociar com seus clientes e fornecedores. Elas conversarão com eles e não mais oferecerão condições iguais ou diferentes sem entender o que isso causa.
Amcham: Como esse movimento contribuirá para reduzir riscos?
Fialho: Ele diminui o risco tangível e intangível. Além dos resultados e projeções, será levada em conta a estratégia. Isso é uma grande evolução do mundo. É um novo modelo mental para se fazer negócios.
Amcham: Na sua avaliação, quanto tempo o mercado financeiro no Brasil levará para retomar os níveis registrados em 2007?
Fialho: Não existem indicadores suficientes para se fazer uma previsão temporal de recuperação. Qualquer economista que o fizer estará arriscando. O que é fato é que a proporção de ativos financeiros equivalente a seis vezes o PIB mundial estava muito exagerada. Essa relação não é saudável e não acredito que o mundo queira sua volta.
Minha torcida é para que essa crise não dure muito e a estabilidade comece a reinar. Se será em patamar alto ou baixo, importa menos do que a instabilidade. Qualquer ponto em que se estabilize tende ao caminho globalmente justo. Aí virá o novo tempo, com novas regras, novas questões que não ouso arriscar.
Fonte: cidadebiz.oi.com.br
Crise deve mudar a maneira de fazer negócios, diz diretor da Fundação D. Cabral
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