Emerson Crivelli: ‘Bauru é a cidade mais carioca de SP’

Uma cidade quente, hospitaleira e bonita. Assim é Bauru para o arquiteto Emerson Crivelli, 55 anos. Por essas qualidades, é uma cidade que se assemelha ao Rio de Janeiro, a ponto de ele dizer que Bauru é a cidade mais carioca dentro do Estado de São Paulo. “Só falta a praia”, lamenta. Por outro lado, é uma cidade que trabalha tanto quanto São Paulo. Enfim, “Bauru é uma cidade fantástica”, conclui Emerson.

Ele passou dois anos morando e trabalhando em São Paulo e 15 anos em Campinas. Durante esse tempo, colecionou várias conquistas, mas nenhuma se compara às vitórias obtidas em Bauru. “Vencer lá fora não é a mesma coisa que vencer aqui. Aqui tem outro sabor. Precisaria ser poeta para saber descrever em palavras o que eu sinto”, afirma.

Descendente de italiano (o avô veio ainda criança do norte da Itália para Bauru), Emerson faz parte da segunda geração de baurenses natos. O pai também nasceu em Bauru. Desde abril deste ano, Emerson assumiu a presidência da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos (Assenag). Segundo ele, a entidade pode ser comparada a um avião na cabeceira da pista, pronto para voar, em razão das boas administrações anteriores.

Na entrevista concedida ao Jornal da Cidade, ele fala de arquitetura, aviação e de sua paixão por Bauru. Acompanhe.

Jornal da Cidade - Em que circunstância a arquitetura passou a fazer parte de sua vida? Quando você decidiu ser o que é hoje?

Emerson Crivelli - Eu era bem jovem. Estudava na escola Ernesto Monte e, no caminho, eu passava por algumas casas que começaram a despontar na época por causa da sua arquitetura moderna. E outras obras foram surgindo na cidade que me chamaram a atenção.

JC - Você tinha quantos anos nessa época?

Emerson - Eu estava na faixa dos 16 ou 17 anos. Era uma época em que Brasília ainda estava muito focada nas suas construções. Eram obras que saíam o tempo todo nas revistas. E toda aquela arquitetura moderna me fez achar que era a profissão que eu queria para mim. Antes da arquitetura moderna, havia a arquitetura de escolas, ou seja, a escola gótica, neoclássica. Aquela coisa chata de copiar. Na verdade, os arquitetos eram copistas. Eles desenvolviam projetos, mas as fachadas eram cópias, eram todas parecidas, seguiam o mesmo padrão. A partir de 1922, com a Semana da Arte Moderna, a arquitetura rompeu com esse padrão. Com o advento do concreto armado, foi dado mais liberdade à estrutura das paredes. Hoje, a parede é uma peça de vedação e não mais uma peça estrutural. Hoje, você pode fazer uma parede de vidro porque não é a parede que segura o prédio, mas o pilar de concreto que fica no canto.

Jornal da Cidade - Os arquitetos ficaram mais livres para criar?

Emerson - Ficaram mais livres. Na época, quem preconizou essa arquitetura moderna foi o arquiteto franco-suíço Le Corbusier. Ele preconizou na teoria e depois começou a fazer algumas obras modernas. E um dos primeiros prédios no mundo feitos seguindo a teoria da arquitetura moderna foi o Ministério da Educação, no Rio de Janeiro. O prédio fica entre uma avenida e o mar. Ele foi construído sobre pilotis, de modo que quem passava pela avenida podia desfrutar da vista do mar. Os soleils também foram uma invenção do Le Corbusier. Eles têm como objetivo fazer sombra na fachada dos prédios e, com isso, dar mais conforto térmico.

JC - No Brasil, quais foram os principais precursores dessa arquitetura moderna?

Emerson - Lúcio Costa foi um dos arquitetos brasileiros que acompanharam esse movimento. Junto com ele estava o estagiário Oscar Niemeyer. Quando Lúcio ganhou o projeto da cidade de Brasília, os dois trabalharam juntos, mas Niemeyer ganhou mais projeção por causa do caráter artístico da sua obra. Você pega o Palácio da Alvorada, o Palácio da Justiça, a Catedral, que na minha opinião é a obra mais bela dele. Essa parte artística dá um marketing muito forte. É a mesma coisa quando arquitetos e engenheiros trabalham juntos. Ambos são importantes para as obras, mas quem assina a parte estética é o arquiteto. Por isso, o Niemeyer ficou mais famoso do que o Lúcio Costa. Foi uma grande injustiça com ele, porque foi um importante pensador da arquitetura moderna.

JC - Arquitetos e engenheiros normalmente trabalham juntos, mas o que compete a cada um?

Emerson - O arquiteto é formado para fazer o projeto. Ele analisa a necessidade das pessoas e pensa como vai distribuir os espaços. É um projeto mais humano. Já o engenheiro faz os cálculos. É um profissional mais especializado em obras. Então, quando os dois se unem o trabalho sai muito melhor. É possível eu fazer uma casa sozinho, assim como um engenheiro também consegue, mas cada um tem uma especialidade diferente.

JC - Comparando o tipo de arquitetura que predominava quando você iniciou a carreira e a que predomina hoje, qual está melhor?

Emerson - Hoje está muito melhor. Temos mais recursos e materiais novos. O mundo está melhor. O Brasil está melhor. Nós temos evoluído. Nós reclamamos muito porque queremos que melhore ainda mais. Mas a pobreza está menor. A qualidade de vida de uma família pobre, há 50 anos atrás, era muito pior do que a de uma família pobre hoje. O mesmo acontece com a arquitetura. Eu acho que o governo deveria incentivar mais.

JC - De que forma?

Emerson - Por exemplo, é inadmissível que o governo cobre 33% de impostos sobre uma casa popular. Quando o governo reduziu os impostos do carro popular, houve uma expansão nas vendas. Se fizesse o mesmo com as casas populares, teríamos muito mais moradia por um preço menor. Esse percentual foi divulgado após uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas. Não sou eu que estou criando esse número.

JC - E em Bauru, como estamos nessa questão de arquitetura? Temos bons exemplos ou estamos pobres em termos de modernidade?

Emerson - Eu acho que estamos melhorando. A cidade está começando a despertar para a arquitetura moderna. É só ver o padrão das casas dos condomínios fechados. Agora existe a preocupação de ter sempre um arquiteto para cuidar da parte estética e funcional da obra. O padrão das novas casas, das novas construções, evoluiu muito se comparado com o que tínhamos há 20 anos atrás. O trabalho de arquitetos como Jurandyr Bueno Filho, Fernando Pinho, Marcondes do Amaral ajudaram a divulgar a arquitetura.

JC - E na parte da formação de mão-de-obra, como está Bauru?

Emerson - A cidade conta hoje com três faculdades de arquitetura. Temos a Unesp, a Unip e agora a USC, que está no primeiro ano de curso. Temos um número bom de arquitetos. Nosso trabalho não é caro. Ao contrário, um bom projeto torna a obra mais barata. Na média, um bom projeto ajuda a economizar cerca de 20% com a obra. Se conseguir essa economia, um arquiteto sai de graça, ou seja, com o dinheiro que deixou de gastar com material, você paga o profissional e tem um obra com muito mais qualidade. E nós temos inúmeros arquitetos bons na cidade.

JC - E tem trabalho para todos?

Emerson - Ninguém está dispensando projetos, mas podemos dizer que hoje nós temos um grupo de 40 a 50 arquitetos que vivem de arquitetura. Há 30 anos, eram uns quatro ou cinco. Então, acho que está melhorando.

JC - Você está dando aulas para os alunos de arquitetura da USC?

Emerson - Estou. É um curso que nasceu com uma mentalidade nova. Com certeza, ainda vai ser um dos melhores do Brasil.

JC - É a sua primeira experiência como professor?

Emerson - Não. Eu dei aulas na Unesp durante uns 12 anos. Parei porque não conseguia conciliar o trabalho na faculdade com o escritório. Eu tive de optar. Como naquela época o escritório estava com muito serviço, eu optei por ficar no escritório. Agora estou voltando para a sala de aula porque o curso da USC é à noite. Então, não atrapalha o trabalho no escritório.

JC - E como é sua vida além da arquitetura? O que você faz fora do escritório?

Emerson - Depois de muitos anos, consegui realizar um sonho, que é fazer o curso de piloto. Adoro aviação, vôo a vela.

JC - Esse sonho vem desde quando?

Emerson - Vem lá de trás, junto com a arquitetura. Eu tive de optar por um caminho e optei pela arquitetura, mas sempre gostei de aviação, acho um hobby excelente. Como Bauru tem uma escola de pilotos, eu tinha de aproveitar isso.

JC - E como foi o primeiro vôo?

Emerson - É um momento muito interessante. Quando você se vê sozinho dentro do avião vem aquele pensamento: ‘o que eu estou fazendo aqui? Agora, vou ter de pôr esse troço no chão’. É muito emocionante.

JC - E já está voando com regularidade?

Emerson - Voar é caro e não faz parte do dia-a-dia. Eu vôo, mas não com regularidade. Também não tenho tanto tempo.

JC - E você tem mais alguma paixão, além da arquitetura e aviação?

Emerson - Minha família, a música, especialmente a bossa nova e o jazz. A música faz um bem muito grande para a alma, ainda mais se for acompanhada de uma cervejinha. É uma terapia. Você esquece dos problemas.

JC - Você falou da família. Tanto você quanto seu pai são bauruenses natos. Você gosta da cidade?

Emerson - Bauru é uma cidade fantástica. Eu passei mais de 15 anos fora daqui. Fui morar em São Paulo e depois em Campinas. Mas vencer lá fora não é a mesma coisa que vencer aqui. Aqui tem outro sabor. Precisaria ser poeta para saber descrever em palavras o que eu sinto. É muito bacana quando você vê algo que você desenhou no papel e agora existe de verdade. É diferente quando isso acontece em Bauru. É gostoso morar aqui. Eu até brinco quando digo que Bauru é a cidade mais carioca de São Paulo. Vieram muitos engenheiros do Rio de Janeiro para Bauru na época da ferrovia. É uma cidade que recebe bem as pessoas, é uma cidade quente e hospitaleira como é o Rio de Janeiro. Só falta mesmo a praia. Por outro lado, é uma cidade que trabalha como se trabalha em São Paulo. Bauru é uma cidade fantástica.
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Perfil

• Nome: Emerson Crivelli

• Idade: 55 anos

• Local de nascimento: Bauru

• Esposa: Sidneia Rodrigues Bighetti Crivelli

• Filhos: vPaola e Carlo

• Hobby: Voar

• Livros de cabeceira: “Capitães de Areia”, de Jorge Amado, e “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos

• Filmes preferidos: “O Poderoso Chefão” e “Tropa de Elite”

• Estilo musical predileto: Bossa nova, jazz e MPB

• Time: Noroeste

• Para quem dá nota 10: Para minha família

• Para quem dá nota 0: Para a violência

Fonte: jcnet.com.br

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