Perder um filho: dor que nunca passa

Uma linha tênue, um corte profundo, uma cicatriz que não fecha, uma dor que não passa. De todas as perdas que alguém pode sofrer na vida, a morte é, sem dúvida, a mais dura de aceitar. “É mais difícil porque o lugar da pessoa que se foi nunca mais poderá ser ocupado”, avalia a assistente social paulistana Renata Moraes Ferreira, especialista em família, casal e luto.

Quando alguém morre, explica ela, o mundo daqueles que ficaram precisa ser reorganizado. “Há um rompimento, e a pessoa tem sua vida completamente alterada. Nunca mais as coisas voltarão a ser como eram”, diz Ferreira.

Mas se tanta gente morre (nós mesmos, algum dia, passaremos por isso), por que é tão difícil aceitar a morte? “A sociedade ocidental possui uma cultura de negação da morte. As pessoas têm dificuldade de encará-la como um processo natural da vida. Na verdade, a morte (bem como as outras perdas) é vista como uma espécie de fracasso. Fica sempre aquela pergunta: onde foi que eu errei?”, explica a especialista.

Aceitar a morte, em um contexto como este, seria o mesmo que admitir que somos fracos e impotentes diante da natureza. Ferreira tece um paralelo com as culturas orientais, que encaram as perdas de uma maneira mais normal.

Uma velha lenda indiana conta que uma mulher, cujo filho acabara de falecer de maneira trágica, foi até Buda para pedir que ele devolvesse a vida ao garoto. Após ouvir atentamente os lamentos da mãe, Buda respondeu que aceitaria ressuscitar o menino, mas só o faria se ela lhe trouxesse uma semente de romã que fosse colhida em uma casa onde jamais alguém tivesse morrido.

A mulher saiu pelo vilarejo em busca da tal semente e percebeu que todas as casas tinham pés de romã plantados, pois era costume da época. Notou, também, que todas as famílias do vilarejo tinham pelo menos uma história trágica para contar. Foi quando ela se deu conta de que todos estamos sujeitos à morte e que não deveria se revoltar pela ausência do filho.

Mas nós, que somos ocidentais e não gostamos de perder - que choramos quando nosso time do coração é derrotado ou nos enfurecemos se nosso candidato não é eleito -, como fazer para superar a perda inevitável, a maior de todas?

“Não dá para superar a dor de uma perda dessas (da morte). O máximo que podemos fazer é aprender a conviver com esse sentimento”, acredita a autônoma Fátima Darapassolo, 54 anos, que perdeu um filho, vítima de câncer, há sete anos.

Atualmente, ela integra um grupo de apoio denominado “Jóias Devolvidas”, fundado em 2004, que presta suporte emocional e psicológico a cerca de 25 mães e pais bauruenses que perderam filhos de maneira trágica (acidentes, doenças graves).

Nos relatos a seguir, o leitor terá a oportunidade de conhecer como quatro integrantes do grupo fizeram para aprender a lidar com a dor do filho que se foi. Irá entrar em contato, também, com a história de Antônia Silvestre Rocha, a dona Tonica, que do alto de seus 82 anos de idade acumula inúmeras perdas na vida, das quais a retirada de um dos seios, por conta de um câncer de mama.

Afinal, a intensidade do luto é diretamente proporcional ao vínculo que a pessoa tinha com aquilo ou aquele que se perdeu. Mais ou menos como escreveu o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, em seu livro “Aurora”: “Uma gota de sangue a mais ou a menos em nosso cérebro pode tornar extremamente miserável e dura a nossa vida, de tal modo que sofreremos mais com essa gota do que Prometeu com o seu abutre.” Acompanhe os relatos a seguir.

Mais informações sobre o Grupo “Jóias Devolvidas” podem ser obtidas pelos telefones (14) 3218-1363 ou (14) 3879-3057.


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‘Ele vai acordar?’

José Alberto, o Beto, tinha 16 anos e adorava jogar futebol. Certo dia, sentiu uma dor na perna e achou que fosse resultado de alguma pancada sofrida nos gramados. Descobriu que tinha câncer no fêmur. Foram 13 meses de tratamento (e de agonia), acompanhados de perto pela mãe, Fátima Darapassolo, hoje com 54 anos. “A pior coisa que existe para uma mãe é ver o filho sofrer”, diz ela.

“Depois que descobriu a doença, o Beto tentou levar uma vida normal. Saía com os amigos, ia a shows e chegava a levar comprimidos de morfina (para aliviar a dor) à balada. Sempre acreditei que ele fosse se curar, até alguns dias antes dele morrer.

O tratamento foi difícil, e a doença se alastrou para o pulmão e depois para o cérebro. Ele nunca perdeu a esperança. Uma vez, levei-o para fazer uma radiografia dos pulmões e ele pediu para ver a chapa. ‘Para quê, meu filho?’ ‘Eu tenho o direito de ver o resultado do meu exame.’

Ele apanhou a chapa, olhou e disse: ‘Não tenho mais o pulmão direito, e o esquerdo já está comprometido. Uma coisa porém eu digo: nenhuma folha cai de uma árvore sem que Deus assim queira’. Um mês antes de morrer, o Beto pediu para que o tratamento fosse interrompido. Algumas semanas depois, ele teve uma crise de falta de ar. Rezei para Deus e pedi para que levasse meu filho. Chamamos uma ambulância, e antes de ir embora, ele me disse: ‘Aconteça o que acontecer, nada irá nos separar’.

Depois que o Beto foi enterrado, fiquei sabendo que ele havia comentado com a irmã que não tinha medo de morrer, mas sim de que eu não suportasse a perda. Senti um vazio muito grande no peito. Deixei minhas filhas de lado e comecei a trabalhar feito doida para tentar esquecer a dor. Foi assim por um ano, até que a ‘ficha caiu’.

Voltei, então, a me dedicar à casa e às minhas filhas. Vi que não podia ser egoísta, pois elas precisavam de mim. Em 2004, ajudei a fundar o Grupo ‘Jóias Devolvidas’ e passei a me dedicar a trabalhos voluntários.

A gente costuma achar que é natural os filhos enterrarem os pais, e não o contrário. Hoje percebo que não temos o direito de querer ser privilegiadas, pois todos podem estar sujeitos à morte.”


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‘Algum dia ainda quero perguntar a Deus...’

Aos 82 anos de idade, a aposentada bauruense Antônia Silvestre Rocha, a dona Tonica, pôde experimentar inúmeras perdas na vida. A primeira foi a morte do pai, quando tinha 7 anos de idade, ferida que carregou consigo até depois de casada.

A perda menos dolorida talvez tenha sido a retirada do seio, por conta de um câncer de mama, 18 anos atrás. Doídas mesmo foram as mortes de quatro filhos e do marido, que deixaram cicatrizes profundas e que, ainda hoje, obrigam-na a se fazer de corajosa para não sucumbir à tristeza.

“Perdi meu pai quando tinha 7 anos de idade, e aquilo me marcou demais, pois éramos muito ligados. Lembro-me de quando íamos buscar jabuticaba no mato ou de quando cavalgávamos juntos, em Avaí. Ele foi apartar uma briga, acabou sendo ferido e morreu. Precisei rezar muito para esquecê-lo, e a dor só passou quando eu já era adulta.

Nessa época eu já estava casada. Perdi dois filhos, ainda bebês e digo que, por mais que tenha sentido a morte de meu pai, nada se compara à dor de enterrar um filho. Sou muito católica, mas garanto que se pudesse me encontrar com Deus, teria me atracado com ele no dia em que meus meninos morreram.

Algum dia, ainda quero me encontrar com Deus e conversar com ele durante um bom tempo. Vou perguntar a ele o porquê de muitas coisas que aconteceram em minha vida... Certa vez, um amigo me falou:

‘A senhora devolveu seus filhos para Deus.’ Respondi a ele: ‘Pode até ser. Mas que troca difícil de se fazer...’

O tempo passou, e a dor se acalmou. Sentia uma felicidade muito grande, pois estava ao lado das pessoas que mais amava (o marido e os oito filhos). Resolvi escrever um livro sobre as coisas da minha infância, já havia 40 páginas prontas, estava muito bonito.

Daí, eu tive câncer de mama e precisei retirar um dos seios. Meu marido chorou, meus filhos ficaram preocupados, mas me mantive tranqüila. ‘A vida vai continuar normalmente’, falei. Fui para a sala de operação como se estivesse indo para uma festa. E minha rotina seguiu como antes.

Até que meu marido ficou doente e morreu. Aquele foi um período difícil. Alguns meses depois, um cunhado meu faleceu, e pouco tempo mais tarde, minha irmã, esposa dele, caiu em depressão, e acabou partindo.

Passado mais um tempo, minha outra irmã acabou falecendo. Sou muito dinâmica. Quando fico deprimida, falo para mim mesma: ‘Levanta, Tonica, levanta!’

Para mim, saudade é a pior palavra que existe no mundo. Depois que meu marido morreu, nunca mais liguei o rádio (ele tinha o costume de ligar todas as manhãs). Pode parecer mentira, mas sinto falta do braço dele sobre meu ombro, quando estou dormindo.

Às vezes, até comento com meus filhos: ‘Hoje, não durmo por falta do braço do seu pai...’ Isso foi há 16 anos. Depois, ainda tive o desgosto de perder mais dois filhos, vítimas de câncer.

Uma mãe nunca deveria ver um filho morrer. Nunca.

Certo dia, peguei aquele livro que eu estava escrevendo, levei até o jardim e o queimei. Não sei por que fiz aquilo. Estava uma coisa tão linda, e meu castelo havia desmoronado. Se não fosse pela minha fé e pelo trabalho, talvez eu já tivesse caído de vez. Dizem que o tempo vai passando e que a gente se esquece da dor. Mas não esquece...”

Fonte: jcnet.com.br

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