Há 25 anos morria em Bauru o ex-prefeito Édison Gasparini

No dia 1.º de novembro de 1983, há exatos 25 anos, Bauru perdia seu prefeito. Édison Bastos Gasparini morreu ao ser vencido por um câncer no cérebro, 273 dias após ser empossado prefeito da cidade. Na época, ele tinha 49 anos e faria 50 anos 24 dias depois.

Familiares e políticos que conviveram com ele destacam suas qualidades como liderança preocupada com as minorias e dotado de grande caráter humanista.

A esposa, dona Darcy, conta que conheceu Gasparini em 1954. Na época, ele tinha 22 anos e ela, 14. Marcaram o casamento para novembro de 1957, mas um mês antes o futuro marido foi preso. O motivo: defendia que o petróleo era do Brasil. Dona Darcy diz que participava das manifestações junto com Gasparini.

Segundo ela, o esposo não pensava em seguir carreira política, mas com o tempo mudou de idéia. “O Gasparini chegou à conclusão de deveria entrar na política para poder resolver a situação dos mais humildes”, comenta.

Dona Darcy lembra que o marido se candidatou a prefeito sem recurso algum e ficou surpreso com o resultado das urnas. “Quando ele viu que estava eleito, disse para mim que pensou que era brincadeira, mas o povo acabou levando a sério”, cita ela.

Édison Gasparini Júnior, segundo filho do casal, estava com 19 anos quando o pai morreu. De acordo com ele, a mãe demorou sete anos para se recobrar da perda. “Acabei virando o chefe da família”, lembra Júnior.

Segundo ele, o que mais destacava no pai era a busca incessante em promover mudanças na vida das pessoas, seja como advogado trabalhista ou como vereador.

Júnior conta que o pai atendia aos trabalhadores aos sábados e domingos porque não queria que eles perdessem horas de serviço. “Ele não se preocupava só com as questões gerais, mas com cada pessoa individualmente”, diz Júnior.

Com a morte de Gasparini, assumiu a prefeitura o vice, José Gualberto Angerami, o Tuga, que destaca as qualidades do político. “O Gasparini conseguia reunir, ao mesmo tempo, firmeza no enfrentamento com os poderosos e uma humildade incrível no contato com os mais humildes”, diz. “Quando andava com ele pelos bairros, todos o conheciam pelo nome e muitos se surpreendiam com o seu porte físico franzino, pois quem o ouvia pelo rádio imaginava que era um gigante pela postura que demonstrava ao utilizar a tribuna da Câmara Municipal como vereador”.

Segundo Tuga, Gasparini também possuía uma cultura histórica e religiosa muito grande e influiu muito em uma geração de militantes formada nos anos 70 e início dos anos 80. “Particularmente, até hoje digo coisas que aprendi durante a minha convivência com ele”, comenta o atual prefeito de Bauru. “Como pai, também era um gigante, mesmo enfrentando dificuldades financeiras. Como advogado, coerentemente, só advogava para trabalhadores”.

Convivência

Antonio Pedroso Júnior conviveu com Gasparini. Lembra que o ex-prefeito foi grande liderança popular e sindical. “O Gasparini foi o primeiro a tentar organizar as associações de moradores de bairro em Bauru”, comenta.

Outro que conviveu com o ex-vereador e ex-prefeito foi o advogado Joaquim Mendonça Sobrinho. A amizade surgiu na Faculdade de Direito, em 1957. “Ao invés de estudar, o Gasparini usava o ambiente escolar para discutir política com as pessoas”, lembra.

Em 1961 Mendonça formou-se advogado, mas como o colega continuava na faculdade e não podia ajudar os outros, encaminhava ações trabalhistas para ele. “O Gasparini vivia em meu escritório quase diariamente, sempre trazendo causas de pessoas vítimas de injustiças”, comenta Mendonça.

Companheiro e assessor de todas as campanhas, Darci Rodrigues conta que Gasparini destacava-se por sua solidariedade e espírito fraterno. “Realmente foi uma felicidade ter convivido com ele”, diz Rodrigues. “Não era dono de nada; tudo o que tinha, distribuía”.

Dois bauruenses conviveram com Gasparini na Câmara Municipal. Isaias Daibém atuou ao lado do amigo de 1977 a 1982. “Ele foi um dos maiores defensores de questões sociais que Bauru já teve”, aponta. “Sempre teve coerência ideológica e serve de exemplo para quem está na política hoje”.

Daibém lembra que, assim que eleito, o ex-prefeito criou o Centro de Defesa do Consumidor, embrião do atual Procon. Gasparini atendia as pessoas na própria sede do Legislativo.

Roberto Purini exerceu a vereança com o colega de 1972 a 1976. “Posso garantir que o cemitério da Bela Vista só existe por insistência do Gasparini”, lembra Purini.

Segundo ele, o ex-prefeito era um “defensor intransigente das minorias e um homem de visão humana muito grande”.

Antonio Tidei de Lima, que foi deputado e prefeito de Bauru, conheceu Gasparini em 1970. Os dois eram filiados ao mesmo partido na época: MDB. “Tínhamos a mesma linha de pensamento político e a mesma convergência ideológica”, diz ele. “Foi um professor de política e humanismo e, em sua curta passagem, deixou marcas significativas na história política de Bauru”.


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História

Édison Bastos Gasparini nasceu em Botucatu. Casou-se com a professora Darcy da Silva, com quem teve quatro filhos: Rosana; Júnior, Helena e Alex. Depois o casal adotou os gêmeos Marcos e Matheus.

Na Faculdade de Direito, defendeu ardorosamente suas idéias políticas, o que lhe valeu rotulações de subversivo, vermelho e anti-cristão.

Em 1954 foi admitido como funcionário da prefeitura, após prestar concurso para escritutário. A vida política teve início em 1959, quando elegeu-se vereador pelo Partido Social Progressista. Eleito, ingressou no Partido Socialista Brasileiro.

Em 1963 foi reeleito para o cargo de vereador. Foi nessa época que passou os piores momentos de sua vida. Em 3 de abril de 1964, três dias após o golpe militar, precisou fugir. Pedroso diz que ele se escondeu no forro da Câmara Municipal. Depois fugiu para Botucatu num táxi do ex-vereador José Gonçalves dos Santos. Os colegas do Legislativo se reuniram para dar dinheiro para pagar a corrida. Em seguida foi para o município de Bofete e, depois, para o distrito de Pirambóia no município de Anhembi.

Voltou para Bauru no dia 28 de julho, mas os amigos, temendo algum risco, o aconselharam a ir para São Paulo. Sem dinheiro, sobreviveu com doações feitas por pessoas próximas.

A volta para a Câmara aconteceu em agosto de 1965. A Frente Anticomunista (FAC) queria impedir o retorno, mesmo havendo decisão judicial favorável à posse.

Em 1966 formou-se advogado e passou a trabalhar em favor dos assalariados, atuando em sindicatos.

Continuou atuando como vereador até concorrer a prefeito de Bauru e vencer a disputa. O ano era 1982.

Ao assumir o mandato, no início de 1983, ele já apresentava sintomas de um câncer no cérebro.

A limitação das condições físicas tornou bastante penosas suas atividades no Palácio das Cerejeiras.

Gasparini morreu às 13 horas do dia 1º de novembro de 1983, 273 dias após ser empossado prefeito de Bauru. Centenas de pessoas foram ao velório. Ele foi enterrado no Cemitério da Saudade.

Fonte: jcnet.com.br

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