Comércio ainda resiste à crise, porém indústrias já demitem

O setor industrial de Bauru já está sentindo os efeitos da crise financeira internacional. Desencadeada nos Estados Unidos, em setembro do ano passado, a turbulência econômica que afetou todo o mundo vem provocando reflexos no nível de emprego dentro das fábricas de toda a região. O comércio varejista, no entanto, ainda caminha sem grandes perdas.

Embora ainda não haja estatísticas oficiais, o diretor regional da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), José Luiz Miranda Simonelli, estima que grande parte das empresas, principalmente aquelas ligadas ao setor automobilístico, demitiram entre 15% e 20% de seus funcionários. “O setor que mais está sentindo é o da cadeia automotiva, incluindo os fornecedores de peças para montadoras. E está sofrendo muito porque não há crédito ao consumidor. Os bancos têm dinheiro, mas a crise maior é de confiança. Não há confiança em emprestar”, analisa.

No final de novembro, conforme divulgou o JC, o Grupo Volvo do Brasil demitiu 102 funcionários de sua fábrica de Pederneiras. O número representou 14% dos cerca 700 contratados locais da montadora. Na época, a empresa justificou o corte em razão da crise, que demandou a redução de 30% de sua produção.

No entanto, o processo de demissões no setor industrial, de modo geral, teve início no final de dezembro, segundo informa Simonelli. Antes disso, as fábricas procuraram adotar medidas menos drásticas, como promover férias coletivas a uma parte do quadro de funcionários. “Para muitas delas, infelizmente, não houve como não demitir. Com isso, a expectativa é que o mês de janeiro feche com resultados muito ruins”, adianta.

Para o diretor da Fiesp, a extinção de postos de trabalho deverá se abrandar somente depois do próximo mês, mas ainda com desempenhos negativos. “Sofremos um impacto forte, que não deve se repetir. Passado esse momento, a situação pode até piorar, mas será de forma mais contida, mais fácil de controlar e contornar”, observa.

Redução de jornada

Como o processo de demissões já está desencadeado nas indústrias, Simonelli descarta a possibilidade de as empresas, neste momento, proporem redução de jornada de trabalho acompanhada de corte de salários. Em sua avaliação, a redução da taxa Selic, que atualmente está em 13,75% ao ano, e da carga tributária ajudaria a estimular a atividade econômica e a demanda, o que, por sua vez, influenciaria diretamente o emprego.

“Se o governo não abrir mão de algumas coisas, teremos sérios problemas. Com as demissões, diminui a massa salarial com poder de compra, o que diminui o consumo, que interfere na produção, gerando mais desemprego. Entraremos num círculo vicioso”, calcula o diretor da Fiesp.

A maior desaceleração econômica, no entanto, ainda não parece ter afetado o comércio varejista da cidade. Conforme Benedito Luiz da Silva, presidente da Associação Comercial de Bauru (Acib), as vendas, impulsionadas pelas festas de final de ano e pelas liquidações de janeiro, se mantiveram no mesmo patamar do ano passado, garantindo o emprego dos trabalhadores.

“Houve, inclusive, contratação temporária de 3 mil funcionários para o Natal. Acredito que vá haver um diminuição de 10% a 15% no número de efetivações desses postos, em relação ao ano passado. Mas ainda não há um levantamento oficial sobre isso”, frisa.

Apesar de não fazer projeções sobre o momento em que a crise chegará ao setor, Silva acredita que os comerciantes devem se munir de criatividade e flexibilidade para oferecer bons negócios ao consumidor. “Para o cliente que tiver alguma reserva de dinheiro, será um bom momento para conseguir bons descontos no pagamento à vista, porque o lojista precisa vender e vai aceitar negociar”, conclui.

A reportagem do JC entrou em contato com a coordenadoria da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em Bauru para comentar sobre a redução dos níveis de emprego na cidade, mas ninguém foi encontrado.

Demissão em banco

Respingo da crise ou não, o banco Santander demitiu três funcionários em Bauru, nesta semana. De acordo com o Sindicato dos Bancários de Bauru e Região (Conlutas), todos foram dispensados sem justa causa, sendo que dois deles tinham mais de duas décadas de trabalhos prestados à instituição.

Na última sexta-feira, sindicalistas realizaram um protesto em frente à agência Centro da instituição financeira, com distribuição de panfletos à população. Em nota enviada ao JC, o sindicato lamentou a decisão do banco e afirmou que o corte prejudicará todos os correntistas e usuários, que terão de permanecer por mais tempo nas filas. Ainda de acordo o documento, a entidade oferecerá apoio jurídico aos bancários demitidos, para que sejam reintegrados a seus postos de trabalho.

Fonte: jcnet.com.br

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