Eles vão bater à porta, pedir permissão para entrar e oferecer uma bandeira colorida, enfeitada com fitas, enquanto recitam versos e os palhaços dançam ao som do pandeiro e violão. Foi assim que o grupo Folia de Reis de Bauru visitou, no último domingo, diversas famílias no Parque Vista Alegre para arrecadar alimentos para a tradicional festa do Dia de Reis, que será realizada no dia 6 de janeiro.
Deixando por onde passa sua alegria e devoção é também assim que o grupo, um dos únicos em atividade no Interior, mantém viva a celebração da visita dos três reis magos - Belquior, Baltazar e Gaspar - ao Menino Jesus, por mais um ano.
“Para mim é uma festa sem tamanho. Se acabar, eu fico doente. Não posso parar de cantar e deixar de lado minha violinha e o Santo Reis”, afirma Antônio Correia, coordenador do grupo. Atualmente composto por oito membros, o grupo aposta nas crianças para manter a tradição do festejo na cidade. “Adoramos participar e tocar. É a nossa alegria e faz parte da nossa vida”, consideram Wesley Antônio, 10 anos, e Aléx Correia, 12 anos, ambos netos de “seo” Antônio.
Para os foliões, além da fé, é também a alegria com que são recebidos nas casas que faz com que eles não desistam da tradição. “Somos recebidos com muita alegria e os que são devotos chegam a chorar, sempre emocionando muito a gente, mesmo depois de tantos anos”, conta.
Realmente, emoção e alegria não faltaram quando Iracema Soares Fortunato, 68 anos, e seu marido abriram suas portas para os foliões. Com a bandeira de Santo Reis nos braços, dona Iracema recebeu a celebração do grupo diante do presépio montado na sala. Emocionada, a dona de casa mostrou fotos da última visita do grupo, quando, no ano passado, almoçaram em sua casa, e conta reviver a infância a cada vez que ouve o som da Folia de Reis.
“Volto aos meus 10 anos, quando morávamos no sítio e meu pai acordava de madrugada para abrir a porta e receber os foliões”, lembra. “É sempre uma benção. Depois dessa visita, me sinto revigorada e com força para encarar a vida”, completa dona Iracema que está passando por problemas de saúde.
Na casa de Dorvalina Borges da Siva, 67 anos, a passagem do grupo também é sinal de boas lembranças. Com o quintal cheio de netos e filhos, a família relembra o festejo, antigamente realizado por um de seus membros. “É muito bonito e dá saudade. Quando morávamos em Brasília, meu pai era folião”, conta Edna Maria da Silva, enquanto seu filho João Lucas, de apenas um aninho, dançava acompanhando as violas.
Tradição eterna
“Ela vai perdurar por muito tempo. Não acaba um festejo onde a fé fala mais alto que a razão”. É assim que é avaliada a Folia de Reis, no Brasil, por Sidney Carlos Aznar, pesquisador da cultura popular.
Para Aznar, também professor aposentado da Universidade Estadual Paulista (Unesp), os foliões carregam consigo a verdadeira fé, mantendo vivo o desejo de preservar e difundir suas crenças. O pesquisador destaca ainda as crianças como importante ferramenta dessa preservação.
“Aquilo é passado para as crianças e elas dedicam muita paixão ao que estão fazendo”, considera.
A descaracterização aparece também como forma de garantir a sobrevivência. “Muitas Folias de Reis acrescentam elementos de acordo com as suas referências, descaracterizam-se, tudo com o intuito de não morrer”, aponta.
Arrecadação
A arrecadação do grupo Folia de Reis de Bauru começou em outubro e já acumula mais de 150 quilos de alimentos. No último domingo, os foliões visitaram as casas do Parque Vista Alegre até por volta das 16h.
A expectativa é de que cerca de 300 pessoas participem do evento, que, além do almoço, também terá a tradicional reza do terço e o canto de despedida da bandeira.
A festa começará ao meio-dia do dia 6, com a chegada da bandeira, na residência do próprio coordenador do grupo, Antônio Correia, localizada na rua Marcelo Mariuso, 1-60, Núcleo Bauru 16.
Interessados em colaborar com o evento devem entrar em contato através do telefone (14) 3218-1567.
Fonte: jcnet.com.br
Folia de Reis sobrevive em Bauru
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