Campanhas deixam temas sem resposta

Campanha eleitoral não é, na prática, o período de desfile de apresentações sinceras e concretas para temas espinhosos, medidas impopulares que terão de ser tomadas na máquina pública e enfrentamento de questões polêmicas ou de difícil resolução.
O processo eleitoral promove nos candidatos uma reação de auto-defesa que blinda ou facilita ou a proteção política contra futuros estresses de gestão ou, no mínimo, busca a passagem dos candidatos pelo crivo do eleitor nas ruas, nos programas eleitorais de televisão e rádio e nos debates tentando, pelo menos, não afugentar votos.

Não é só uma questão de marketing, é uma aplicação de antídoto político da preservação do candidato em plena campanha. Para tanto, reuniões maçantes de avaliação dos pontos do programa de governo e das estratégias de discurso e até sabatinas com as assessorias antes de debates ou entrevistas individuais com os jornalistas são realizadas, tudo com o objetivo de esconder defeitos ou evitar polêmicas.

Em Bauru não é diferente. O empresário Caio Coube (PSDB) se equivale a Rodrigo Agostinho (PMDB) na apresentação de propostas para as principais áreas de ação e ambos têm, em seus respectivos planos de governo, pontos em branco para questões fundamentais. E nem se elenca nesta verificação a enorme distância entre o que está no papel ou saiu dos discursos inflamados e a realidade, a infalível composição entre o mundo discursivo imaginário, ilusionista até, e a crueldade das mazelas intransponíveis presentes nas favelas e ruas de terra.

Os exemplos estão espalhados por diferentes páginas dos planos de governo, a ponto do resultado final da pesquisa reproduzir rabiscos por todos os lados, é o papel constando que a campanha eleitoral não foi e não mais será suficiente para a escolha do melhor comparativo de gestão.

Para não repetir números e dados basta perguntar a Rodrigo Agostinho quantas quadras ele se compromete a recapear ou pavimentar entre as milhares da lista de espera, ou indagar Caio Coube de qual cofre virão os milhares de reais necessários para que ele, se eleito, consiga cumprir as 500 quadras de pavimentação anunciadas em campanha. Nem com usina de asfalto nova é possível esperar o resultado.

Então, entre o incerto e o improvável apresentado pelos candidatos do segundo turno, o eleitor, de fato, tem à sua disposição se apegar naquele que aparentemente lhe transferiu maior “segurança e sinceridade” na hora de tratar de temas como este.

Os planos de governo não discutem, não aprofundam e não apresentam linhas de resolução para questões como a prioridade nas interligações de bairros, dentro da enorme lista de obras informadas, não define a função da Companhia de Habitação Popular (Cohab) dentro do universo da política de moradias de baixa renda, não informa e esclarece como a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb) vai sair do vermelho e, enfim, ser auto-suficiente, como, em que amplitude e sob quais parâmetros será realizada a reforma administrativa associada à política de planos de cargos e salários, isso em confronto com os limites da legislação fiscal e dos indicadores de evolução de receita no tempo e no espaço, e uma infinidade de outros assuntos que vão ficar na prateleira ou à espera da próxima eleição.

E para que a citação não fique restrita ao universo das reportagens, a avaliação do deputado estadual Pedro Tobias (PSDB) sobre o que viu na campanha e as impressões que teve, como eleitor: “A campanha discutiu o perfil dos candidatos e não permitiu que o eleitor possa escolher entre quem, como, quando e de que forma muitos dos nossos problemas serão resolvidos. Seja quem for o prefeito, terá muita dificuldade e não vai conseguir responder à população em várias áreas. Na campanha pareceu que vai chover dinheiro em Bauru. Na hora de sentar na cadeira, vai chover lágrimas de ansiedade. Faltou realismo”, disse o deputado por Bauru que teve a segunda maior votação entre os 94 parlamentares que representam os paulistas.
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Fala-povo

‘Como você avalia a campanha no segundo turno?’

“Está difícil. Há muita promessa e muita superficialidade na discussão. Um ganha do outro na baixaria”.
César Augusto Nunes, 49 anos, autônomo

“Eles prometeram demais. Terminou a campanha no segundo turno e ainda fiquei com muitas dúvidas”.
Jonatan Henrique Ramos, 18 anos, estudante

“Ocorreu muita discussão ao invés de propostas. Ao invés de partirem para a disputa pessoal, deveriam debater Bauru”.
Bruno Bigheti Ramos, 19 anos, estudante

“Nenhum dos dois candidatos fará nada. A cidade não tem dinheiro. Há muita promessa de asfalto, mas não falam como realizar”.
Laurindo Leonildo Facin, 73 anos, aposentado

“Eles debateram os problemas da cidade, mas acredito que muitas propostas ficarão sem ser realizadas. Não há dinheiro para tudo”.
Carlito de Moraes, 56 anos, aposentado

“As campanhas dos dois candidatos foram boas. Eles apresentaram boas propostas”.
Natiele Andresa dos Santos, 18 anos, estudante

“Os candidatos só prometeram, mas não cumprirão as propostas. Ficaram falando mal um do outro, mas não discutiram a cidade”
Cássia Cristina da Silva, 17 anos, estudante

“Ocorreram muitos conflitos na campanha. Não sei se vão cumprir o que estão prometendo. Falaram muito em recursos dos governos estadual e federal.”
Osmar Teixeira dos Santos, 55 anos, aposentado

“As propostas foram parecidas e bem discutidas. Só não gostei dos ataques pessoais entre os candidatos”.
Márcio Soares de Oliveira, 36 anos, coordenador de vendas

“No segundo turno foi mais fácil decidir porque só havia dois candidatos. Houve exagero no que falaram e, além disso, terão dificuldade em realizar obras”.
Creusa Maria Campanelli, 57 anos, aposentada

“No segundo turno a discussão foi mais profunda. Só a saúde e a situação dos servidores municipais não tiveram a devida atenção”.
Patrícia Reginato, 34 anos, funcionária pública

“A saúde deveria estar em primeiro lugar. Faltou eles dizerem como atuarão nessa área. Precisam reativar o Pronto-Socorro da Bela Vista”.
José Antonio dos Santos, 55 anos, aposentado

“Pelo que acompanhei, pude verificar que as propostas foram bem discutidas pelos candidatos”.
Fábio Luis de Oliveira, 30 anos, analista de sistemas

“Apesar da campanha ter sido agressiva, consegui obter as informações que necessitava para decidir o voto”.
Lucas Bitencourt, 21 anos, vendedor

“Pelo que acompanhei na campanha, as propostas dos dois candidatos tiraram todas as minhas dúvidas”.
Antonio de Matos, 54 anos, aposentado

“Faltou algo na campanha, como discutir mais a fundo os problemas da cidade. Os candidatos foram muito genéricos”.
Francisco Carlos Saes, 52 anos, vendedor

“Os dois candidatos se agrediram muito no segundo turno. Apesar disso, as propostas foram bem esclarecedoras”.
Edson Kruger, 52 anos, aposentado

“Achei que os dois candidatos passaram suas propostas, mas muitas delas dificilmente serão realizadas”.
Divina da Silva, 37 anos, encarregada

Fonte: jcnet.com.br

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